Segundo a MIT Technology Review Brasil, a dependência de instituições brasileiras de ensino e pesquisa em relação às big techs levanta preocupações relevantes sobre soberania e governança de dados.
A digitalização acelerada das instituições brasileiras de ensino e pesquisa trouxe ganhos operacionais relevantes. A adoção de plataformas em nuvem ampliou capacidade computacional, reduziu custos iniciais e viabilizou projetos antes inviáveis.
No entanto, esse avanço traz uma questão crítica: quem controla, de fato, os dados estratégicos dessas organizações?
O paradoxo da nuvem: eficiência vs. controle
A computação em nuvem, liderada por grandes provedores globais, consolidou-se como pilar da transformação digital. Seu valor é inquestionável:
- Escalabilidade sob demanda
- Redução de infraestrutura própria
- Acesso a tecnologias avançadas
Porém, essa dependência cria um ponto de atenção: o deslocamento do controle dos dados para fornecedores externos.
Esse movimento altera a dinâmica de poder sobre ativos críticos, especialmente em setores como educação e pesquisa, onde dados têm valor científico, estratégico e até geopolítico.
O caso Fiocruz: quando o risco se materializa
Um exemplo emblemático é o da Fiocruz.
A instituição enfrentou uma redução significativa de sua capacidade de armazenamento após mudanças comerciais unilaterais da Microsoft.
Esse episódio evidencia um ponto-chave:
Dependência tecnológica pode se transformar rapidamente em vulnerabilidade operacional.
Não se trata de falha técnica, mas de exposição a decisões externas, fora do controle da organização.
Soberania de dados: além da infraestrutura
Soberania de dados é frequentemente associada à localização geográfica da informação. Essa visão é limitada.
Na prática, soberania envolve três pilares:
1. Governança
Capacidade de definir políticas de uso, acesso e retenção dos dados.
2. Autonomia
Liberdade para escolher fornecedores, arquiteturas e modelos operacionais.
3. Continuidade
Garantia de acesso e operação, independentemente de mudanças externas.
Sem esses elementos, a organização pode operar em ambiente tecnologicamente avançado, mas estrategicamente vulnerável.
O impacto para empresas e instituições
A discussão não se restringe ao setor público ou acadêmico. Ela se estende a qualquer organização que:
- Dependa de dados para operação crítica
- Atue em ambientes regulados (LGPD, compliance)
- Tenha ativos digitais como diferencial competitivo
Os riscos incluem:
- Interrupção de serviços
- Aumento inesperado de custos
- Lock-in tecnológico
- Exposição regulatória
Caminho estratégico: equilíbrio e resiliência
A resposta não está em abandonar a nuvem, mas em equilibrar dependência e controle.
Algumas diretrizes estratégicas:
Arquitetura híbrida e multi-cloud
Distribuir cargas entre ambientes reduz dependência de um único fornecedor.
Governança de dados estruturada
Políticas claras de classificação, retenção e acesso.
Estratégia de backup e recuperação independente
Garantir que os dados estejam protegidos fora do domínio exclusivo do provedor principal.
Avaliação contínua de risco
Tratar cloud como decisão estratégica, não apenas tecnológica.
A evolução digital exige mais do que acesso à tecnologia. Exige controle.
A soberania de dados torna-se um fator crítico para organizações que desejam crescer com segurança, previsibilidade e autonomia.
O desafio não é escolher entre inovação e controle, é construir um modelo que permita ambos.
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fonte: DA HORA, Nina. Pesquisa em IA no Brasil na era da bolha: dependência de big techs e desafios de governança. MIT Technology Review Brasil, 2026. Disponível em: https://mittechreview.com.br/soberania-de-dados-educacao-pesquisa-big-techs-brasil/